quarta-feira, 20 de junho de 2007

Hierarquias, animalidades latentes

Como se sabe também as sociedades estão organizadas hierarquicamente e a hierarquia faz-se, entre outras formas, através da vinculação pelo medo e consequente Instinto de procura de protecção (Eibl-Eibesfeldt 1998:145), paga os teus impostos e nada terás a temer, sendo que a formulação de qualquer imperativo pressupõe a convicção de superioridade por parte do emissor (coacção legal por exemplo) e de submissão por parte do receptor.

A formação de uma hierarquia pressupõe duas disposições que não encontramos nas espécies animais que vivem solitariamente. Os animais devem, em primeiro lugar, mostrar ambição pelo posto hierárquico e, em segundo lugar, também a disposição de se subordinarem quando não conseguirem atingir os postos mais elevados. Também se pode comprovar nos seres humanos a existência destes dois tipos de disposições ( Eibl-Eibesfeldt 1998:111).


Embora as formas de gerir as hierarquias não sejam universais, por exemplo os Balinesis:


an individual may lose his menbership in the hierarchy for various acts, but his place in it cannot be altered. Should he later return to orthodoxy and be accepted back, he will return to his original position in relation to the other menbers (Bateson 2000: 114-115).


Tais processos devem ser sempre relacionados com o contexto ecológico e cultural onde se inserem:


The Balinese, especially in the food, are not hungry or poverty-striken. They are wastefull of food, and a very considerable part of their activitie goes into entirely nonproductive activities of an artistic or ritual nature in which food and wealth are lavisly expended (Idem: 116).


Parece-me plausível sustentar a hipótese de que quem menos necessidade tem de competir por recursos que lhe permitam a sobrevivência, simplesmente porque eles existem em abundância, mais tempo terá para actividades não agonísticas (arte, poesia, brincadeira). Por exemplo os Balineses resolvem as disputas recorrendo à música.


Já noutros contextos e reportando-nos às sociedades “modernas”, existe uma ameaça de agressão que paira e a sua aniquilação reside no sentimento reconfortante do cumprimento de imposições exteriores ao indivíduo e decorrentes da sua vertente social. Não cobiçar a mulher do próximo, princípio ético-religioso que desde logo ameaça o prevaricador. São exemplos de normas éticas omnipresentes que condicionam a vida do homem, mas, como na vida nada é linear, tudo isto e muito mais se pode fazer desde que não se saiba e isto já é cultura. Cultura é sofisticação e sofisticar é adornar. Neste caso adorna-se por exemplo a ânsia de alcançar os bens materiais e espirituais que supostamente nos fornecem a realização, são preceitos que legitimam hierarquias que evitam as disputas agressivas permanentes, pela mulher do outro, pela defesa da honra da esposa ou namorada ou pela posse dos bens pragmáticos que nos dão estatuto social. Em última análise legitimam-se as classes sociais que só existem em função dos seus privilégios ou ausência deles.

O frango A passa a ter direitos prioritários sobre a comida, sobre o lugar preferido de dormida e pode picar um frango hierarquicamente inferior quando nas disputas iniciais venceu o frango “B”, “C” e “D” (Eibl-Eibesfeldt 1998:109). (os galos e galinhas do mundo)

No ser humano a força física é na actualidade tendencialmente substituída pela astúcia e pela sofisticação que permite por exemplo, dominar as subtilezas da lei num processo de divórcio, de expropriação por utilidade pública ou ainda mais grave, mas menos subtil, quando se manipulam resoluções das Nações Unidas para lutar pelos melhores poços de petróleo. No fundo a agressividade é a forma de gerir a sociabilidade e a sociabilidade o meio de regulamentar a agressividade no acesso aos bens, embora por vezes tal não suceda e a sociabilidade desapareça por completo e com ela a agressividade, surgindo então a nefasta e insensível violência, adornada por sofisticados discursos políticos, orientados por altos valores morais e religiosos que a justificam.

Uma clarificação conceptual torna-se agora necessária, quando se usa o termo agressividade pretendem-se significar os actos ritualizados realizados com o objectivo de evitar perdas e danos, tendo paralelamente a função de hierarquizar (os Zunis têm rituais de iniciação bastante cruéis que mostram a banalidade da agressividade no seu dia a dia [Eibl-Eibesfeldt 1998:96]) e violência quando se pretende provocar perdas e danos nos conspecíficos, nos animais superiores (1), a propensão para fazer asneiras está, infelizmente! , na razão directa do seu desenvolvimento intelectual (Lorenz 1983:17).
Para que os gestos de submissão, que têm por objectivo apaziguar, tenham efeito é necessário que a pessoa atacada tenha tempo suficiente para os emitir e o faça de modo a que o seu adversário os possa apreender. Estas condições deixam de se verificar quando os homens se atacam com armas. A invenção da primeira arma pré-histórica, a moca cuneiforme, permitiu ao homem pôr fora de combate o seu adversário com uma única pancada, roubando-lhe assim, de antemão, qualquer possibilidade de ele mostrar a sua sujeição (Eibl-Eibesfeldt 1998:123).
Neste Post, apenas pretendo sustentar a hipótese de que o aparecimento da arma e seu posterior desenvolvimento tecnológico, alterou os padrões bio-socio-culturais da submissão, com reflexos directos no âmbito da violência e agressividade. É apenas uma ideia.

2 comentários:

Dalila disse...

parece-me que sim

Rafael Velasquez disse...

a primeira vista parece plausivel.