sexta-feira, 1 de junho de 2007

Breve introdução à construção simbólica hindu

Começando por integrar histórica e culturalmente os hindus numa construção simbólica, torna-se necessária uma referência aos vedas, onde consta um mito de origem; o Purusha Skuta onde pode ser encontrada a primeira noção de Varna. Resumidamente trata-se de uma história cosmogónica de um homem primordial que é dado em sacrifício, como consequência o seu corpo explode transportando as suas partes e levando-as a cair em várias localizações, de onde emergiu então tudo o que existe. Da cabeça do Purusha nascem os Brâmans, dos pés os Shudras, dos braços e peito os kshatrias e das coxas os Vaishias. Assim sendo, parece que as classes sociais hindus tem uma origem cósmica, em que se verifica uma relação de complementaridade entre o corpo de Purusha e as varnas que originou.

Em textos realizados posteriormente, os Bramâns especificaram quais as funções das quatro varnas. Eles seriam os teólogos e ritualistas, os kshatrias teriam de proteger o território e deles sairia a figura do rei, os vaishias exerceriam as suas funções no comércio e agricultura e os Shudras seriam os servidores de todas as outras varnas. Na verdade não existem dados etnográficos que verifiquem a existência desta organização, no entanto funciona como uma orientação interna e social, como um modelo divinamente orientado e sustentado.

Outro conceito distinto é o de casta, o termo nativo equivalente é jati e adquire-se a partir do pai (patrilinear) e que devido ao casamento endogâmico a que obrigava, pertencia à mesma casta que a mãe. É uma referência identitária que pode ser perdida através da expulsão da casta por tribunais de casta ou então voluntariamente quando o indivíduo se torna um renunciante (Saniase).

Relativamente a cada casta existe uma expressão ao nível de apropriação espacial que tem a ver com a orientação dos pontos cardeais, cada casta ocupa um espaço especifico e que acompanha todo um conjunto de interditos, também na relação que se estabelece entre elas, por exemplo no que se refere ao consumo de água: esta é um foco de contaminação, logo diferentes castas não usam o mesmo poço para a beber.

A organização de castas é local e varia de aldeia para aldeia, o que mais tarde será importante para compreender os fenómenos identitários em diáspora. Na verdade o que se verifica é que existe um modelo de organização social, que na prática e devido à vastidão do território é recriado localmente tendo em conta as condições e circunstancias específicas em que vive cada comunidade, que no caso Indiano se refere essencialmente a aldeias, visto ser aí que reside cerca de 80 % da sua população.

Outro aspecto importante é o facto de aparentemente estarmos perante um politeísmo, que no entanto têm como pano de fundo um monoteísmo, isto porque as crenças hindus concebem que as divindades podem ter várias manifestações (avataras), no fundo existe uma energia que se pode manifestar de várias formas e possuir vários nomes, inclusivamente essas manifestações podem ter um cariz aparentemente contraditório (o mito do deus Brahma e o incesto cometido com a sua filha). De alguma forma traduzindo a proximidade que se verifica entre homens e deuses.

O sistema religioso e simbólico hindu baseia-se em três deuses (trimustis): Brahma, Shiva e Vixnu. Os dois últimos são os mais adorados e os que estão mais presentes no calendário religioso e ritual, o primeiro aparece mais nos mitos de criação. Vixnu tem dez avataras, nove dessas expressões externas são já conhecidas (as mais veneradas são Rama e Krishna), a décima acreditam que surgirá numa altura caótica e de destruição. Shiva é um deus celestial representado por um falus (Lingam) erecto assente numa vagina (ioni), com alusões claras à sexualidade e à reprodução, no fundo e em última análise ao poder (a escola dos Falicistas Ingleses viam toda a religião como alicerçada nos genitais, o falus representa poder). É também representado numa outra vertente como deus destruidor do universo que depois o reconstruirá, o que deixa antever uma importante faceta do culto hindu, a ideia de que vida e morte se encontram ligadas, o que está de resto presente em muitos dos rituais em que as vítimas sacrificiais são dadas aos deuses para daí fazer emergir a vida, daí também a relação próxima entre deuses e demónios (assuras).




4 comentários:

sapiens disse...

hehehe que regresso ás aulas de contextos indianos.. o purusha é daquelas coisas que nunca mais me sairá da cabeça.. os bocados do purusha espalhados por toda a india... o umbigo do purusha aqui, a lingua do purusha acolá..

bela lugosi`s dead (F.JSAL) disse...

eu nunca mais ouvi falar foi no dedo grande do pé heheheh

sapiens disse...

hihi o dedo do pé grande

Anónimo disse...

:)

Por isso me encanta tanto a filosofia hindhu.

SwáSthya!