terça-feira, 19 de junho de 2007

Animalidades latentes, culturalmente sofisticadas

Bateson ao trabalhar com os Iatmul conclui que a superação das situações de conflito se alcançam pela submissão de uma das partes e que existe uma agressividade que se expressa na realização de rituais que celebram a violência contra estranhos, de alguma forma condizente com o que Konrad Lorenz afirmara de que o homem tem um impulso natural de agressividade para com os seus conspecíficos, só que como se verifica com os Iatmul, esse “instinto” é inibido para com os conhecidos (o grupo), através da submissão e efusivamente festejado quando direccionado para o exterior da comunidade:

Major achievements which, though greeted with more elaborate NAVEN upon their first performance, are also received with some show of naven behaviour every time they occur. Of these the most important is homicide. The first time a boy kills an enemy or a foreigner or some bought victims is made the occasion for the most complete naven, involving the gratest number of relatives and the greatest variety of ritual incidents (Bateson 1938:7).

Como se constata, o ritual será mais efusivo quanto mais agressivo e exteriormente canalizado for o acto de violência:

In our society, fissions tends to be heretical (a following after other doctrines or mores), but in Iatmul, fission is rather schismatic (a following after other leaders without change of dogma) (Bateson 2000:78).

Os rituais mais complexos são dramatizados para celebrar assassinatos.

No entanto, para as outras espécies, a ritualização destina-se a poupar vidas no interior do grupo (machos que competem pelas fêmeas através de atributos fanéricos, evitando o confronto). Relativamente à espécie humana a grande questão é a de que com a globalização económica, política, cultural entre muitas outras componentes, globaliza-se também a guerra e o modo de fazer guerra. Na actualidade são poucos os casos em que os oponentes beligerantes se encontram cara a cara, se assim fosse o perigo de auto-destruição da espécie poderia ser menor e o ciclo schismogenico contrariado por elementos de controlo (Bateson 1973).

Na primeira guerra mundial os soldados entrincheirados da frente ocidental estavam tão próximos uns dos outros que após tantos meses de calma na frente os Franceses e os Alemães não puderam evitar a descoberta de características humanas no adversário, e o simples reconhecimento de que do outro lado da trincheira também passavam fome e sofriam igualmente com a miséria do dia a dia foi suficiente para “desmoralizar” as tropas. Quando se atingia o ponto em que os soldados já trocavam cigarros era altura dos generais substituírem as tropas (Eibl-Eibesfeldt 1998:125).

Como se verifica a proximidade ou distanciamento físico, ligado à tecnologia de matar pode fazer a diferença quanto ao desenlace mais ou menos nefasto de acontecimentos potencialmente violentos e isto porque o homem quando mata ou quando poupa uma vida fá-lo simbolicamente, ele tem a capacidade de demonizar o oponente, de lhe atribuir denotativamente valores que lhe justifiquem o acto. Mais uma vez a proximidade física entre oponentes, pode obstar a essa função espontânea ou manipulada de subjectivar negativamente o “inimigo”, através da comunicação mímica que expressa o medo e a submissão.

Outro caso que exemplifica as alterações de índole social que a forma de matar pode operar numa comunidade está patente no estudo de Gewertz e Errington sobre os Chambri, a que Margaret Mead havia chamado de Tchambuli em trabalho precedente sobre o mesmo universo de estudo (Errington &Gewertz 1991).Verifica-se que o sistema tribal de compensações pele morte de estranhos ao grupo funcionava, permitindo uma coexistência mais ou menos pacífica entre os povos da região. Em 1905 com a introdução da shotgun pelos Alemães e consequente desmoronar do sistema de indemenizações que tinha base o conhecimento de quem havia matado quem, os conflitos crescem exponencialmente:

The Chambri lived largely safe from Iatmul attack until Europeans arrived to the coast of New Guinea at the turn o f the centuary (…) Fighting between the two became increasingly frequent until about 1905, when the Chambri fled their island rather than the risk further military encounters with Iatmul, whose ferocity had been augmented by the acquisition of a German Shotgun (Errington &Gewertz 1991:6).

3 comentários:

RB disse...

Para mim a violência é violência e ponto. Mas é bom saber coisas que nos levam a reflectir melhor sobre o fenómeno.

sapiens disse...

bah.. o browser crashou-me quando tinha um grande post quase acabado.. pronto agora já não escrevo de novo! vou mas é instalar o firefox..

Henrik disse...

Esses estudo infelizmente, ainda pecam por serem vagos, a psicologia e
áreas circundantes, tentam infinitamente delimitar as razões da violência, como a bem dizer de tudo o resto. Há um problema de base, que já se havia verificado no estudo sobre 'O Efeito Lúcifer' do Philip Zimbardo, nesse caso a maldade, é que não se consegue delimitar as razões que levam, no meio de acções de histeria ou compulsão em massa, a acções ditas 'heróicas' (com muitas reticências na terminologia. É que o problema de uma análise comportamental, é que interferimos (nem que seja no domínio da interpretação) nos dados a que nos são dados a observar. A filosofia pecou (sem conotação religiosa) no mesmo erro quando se revestiu do manto da razão. Como se fosse homogénea tal resposta ou questão. Porém, entenda-se, estes estudos interessam na generalidade, são necessários para reavaliar o que vamos entendendo ou não, sobre o que nos circunda.