segunda-feira, 14 de maio de 2007

Pensar o lugar e a relatividade da Arte





Numa experiência inédita, Joshua Bell, um dos músicos mais destacados da actualidade tocou incógnito durante 45 minutos, numa estação de metro de Washington, de manhã, em hora de ponta, despertando pouca ou nenhuma atenção. Ninguém reparou sequer que o violinista tocava com um Stradivarius, que vale 3,5 milhões de dólares. E, no entanto, três dias antes, Joshua Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam 100 dólares.

Mas na estação de metro foi ostensivamente ignorado. Quem lhe prestou alguma atenção foram unicamente as crianças, que o queriam ouvir; porém, inevitavelmente, acorrentadas à pressa dos pais.

“Foi estranho ser ignorado", disse Joshua Bell, “sex symbol” da música da clássica, que vestido de jeans, t-shirt e boné de basebol, interpretou as peças mais conhecidas de Bach e de Schubert, mas a indiferença foi quase total. A qualidade da música e do executante não impressionaram os nova-iorquinos utentes do metro.

"Foi uma sensação muito estranha ver que as pessoas me ignoravam", disse Bell, habituado ao aplauso. "Num concerto, fico irritado se alguém tosse ou se um telemóvel toca. Mas no metro as minhas expectativas diminuíram. Fiquei agradecido pelo mínimo reconhecimento, mesmo um simples olhar", acrescentou.

O sucedido motivou natural o debate, como um caso paradigmático de "pérolas a porcos"? É a beleza um facto objectivo que se pode medir ou tão-só uma opinião? Para alguns, como Mark Leitahuse, director da Galeria Nacional de Arte,"a arte tem de estar em contexto; se tirarmos uma pintura famosa de um museu e a colocarmos num restaurante, ninguém a notará"- dizem.

Para outros, porém, como o escritor John Lane, a experiência indica a "perda da capacidade de se apreciar a beleza". O escritor mantém que tal não significa que "as pessoas não tenham a capacidade de compreender a beleza, mas sim que ela deixou de ser relevante".

Palavras bem pensantes, que não podem iludir uma verdade incontornável: a civilização moderna, no paradigma da sociedade capitalista norte-americana, desumaniza a vida ...


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6 comentários:

bela lugosis dead disse...

Ou então significará que a arte constitui também um valor signo e que através dela comunicamos com os demais algo sobre o nosso status. Explicando melhor, numa sala apropriada e com bilhetes caros a audiência comunica entre si um determinado status social, uma imagem de si, identifica-se com uns, desidentificando-se com outros. Isto significa que o valor das coisas e neste caso da arte, é subjectivo duas vezes, por um lado o produto artístico, por outro a comunicação de imagens que se gera a partir de si, entre os seus consumidores, como uma peça de roupA de marca, um rolex, etc...Os verdadeiros apreciadores serão pois, em número muito mais reduzido que aquilo que se poderia pensar, ao vermos uma sala repleta de gente a assistir a um espectáculo de música clássica. Grande parte vai lá pARA algo mais que a música, não é só o produto artístico, mas o acontecimento social. É uma hipótese.

sapiens disse...

concordo, na verdade as pessoas parecem ter formas de estar consoante o local e a ocasião. não parecem ser os eventos em si que despoletam reacções mas sim as espectativas sociais dos mesmos eventos.

Um concerto do mesmo senhor pago a preço de ouro numa conceituada sala de espectáculos poderia ser mais aplaudido mesmo que tivesse menos qualidade musical tecnica do qeu aquela que foi utilizada para tocar no metro. pura e simplesmente o lugar da pessoa qeu toca no metro nõa é o de artista de destaque, mas sim o de amador, desintegrado, marginal, cego, drogado, pedinte ou todas estas coisas juntas o que retira por parte da maioria dos individuos qeu presenciam todo e qualquer aplauso que se possa oferecer á musica / arte em concreto.

Pura e simplesmente no metro não se aprecia musica , ou pelo menos musica de Qualidade. Os musicos e a sua qualidade não são assim apreciados por aquilo que fazem, mas sim pelo local onde o fazem, o que de facto revela a não apreciação do belo em si, mas sim ,uma apreciação integrada socialmente, em locais, companhias, horários e sessões pré-determinadas... penso que esta será mais uma situação para analisar com as ferramentas de goffman em "a apresentação do eu na vida de todos os dias" mas também á luz de todo um processo ritual e cheio de significação social onde cada um se procura valorizar a si mesmo.

bela lugosis dead disse...

Sem dúvida que acho que é por aí:)

Moura ao Luar disse...

Prontos lá está a porra da semiótica fonix isso dos signos e coiso e tal... ainda por cima era anual... e eu fiquei à nora

sapiens disse...

onde raio está a semiótica que eu não a vi? lololol

Ricardo Sobral disse...

apaga o último parágrafo. Está a mais e é muito redutor. Chega quase a negar o que foi escrito antes dele...
De resto, gostei muito.