sexta-feira, 20 de abril de 2007

Questões e mais Questões







Como ando sempre a pensar nos males do mundo , vinha hoje sugerir-vos uma reflexão. Mais uma vez vou debruçar-me sobre um assunto sobre o qual escrevi num dos ultmos posts: o racismo.
Hoje envolta numa espécie de teoria da conspiração dei comigo a pensar se por ventura o racismo não havia sido uma palavra inventada pelos brancos ( raça “dominante” ) para menorizar eternamente os não brancos e garantirem assim o seu inalienável estatuto de superioridade?

Acontece que quer tenha ou não sido engendrado, o esquema parece estar a funcionar...

Isto porque se pensarmos bem qual é o propósito da constituição de uma palavra que evidencia as divergências e crelas entre duas ou mais raças?

Porque pensamos com as palavras, gostava de sugerir este exercício de utopia mental
Como seria se não existisse a palavra?


O que eu penso é que a palavra em si poderá constituir uma espécie de veneno para quem a usa.

Em “Filhos diferentes de deuses diferentes de Susana e Gabriel pereira bastos mostram-nos como a palavra racismo é francamente mais utilizada pelos grupos com menos sucesso adaptativo ou considerados pelos autores como mais problemáticos a vários níveis na sociedade alargada (ciganos e cabo-verdianos) sentindo-se e dizendo-se muitas vezes vitimas de racismo, enquanto que outros grupos (sikhs e khojas) que embora pertencendo a raças e culturas igualmente distintas das da maioria da população, eram tidos como não problemáticos (parafraseando igualmente os autores) sendo também detentores um maior nível social , escolar e de integração económica. Estes últimos não se não evidenciavam sentimentos ou discursos de serem directamente vitimas de discriminação ou racismo.


Embora os autores tentem explicar a situação com recurso a uma multiplicidade de outras dimensões tais como a religião ou a ligação mais ou menos antiga com o território português estudando as próprias clivagens internas de cada um dos grupos que acabavam em certa medida por constituir uma diversidade dentro destes modelos mais gerais, penso que podemos tirar daqui a nossa própria interpretação , eu pessoalmente encontrei-me numa espécie de dilema existencial relacionado com a própria palavra que descreve o fenómeno sobre a qual podemos por as seguintes questões de causalidade:



- Será o racismo uma palavra / realidade que inferioriza e corta as possibilidades de progressão e de afirmação dos indivíduos minoritários numa sociedade maioritária?

                                    ou

- Será o racismo uma arma de arremesso ou uma ferramenta de desculpabilização que não favorece o mérito e o esforço integrativo dos indivíduos de uma determinada minoria para uma completa integração social na sociedade alargada?


Caso nos debrucemos sobre a segunda hipótese, (não excluindo claro a evidente existência da primeira (que, embora clara não considero que seja a única origem e motivo da utilização da palavra e ideia em discussão)) poderíamos pensar que a existência de uma palavra á partida votada a excluir indivíduos marcados genética ou culturalmente com traços distintivos das suas aspirações a ascender a determinadas posições na sociedade possa na realidade surtir o efeito desejado.

Não obstante esta palavra torna-se igualmente desculpabilizadora e legitimadora da ausência de esforço dos indivíduos contribuindo para a uma formação oral do seu carácter, em vez de uma analidade competitiva e baseada no gosto pelo mérito e pelo amor condicional, tudo isto assente perspectiva frommiana. Parece ser precisamente por este motivo, por esta contaminação semântica, que são precisamente estes os grupos com menor sucesso escolar o que contribui para a manutenção de um status social e económico abaixo da média nas sociedades cada vez mais tecnocratas como a portuguesa e a europeia em geral.

O importante penso, seria também analisarmos as questões numa perspectiva social e assente naquilo que a sociedade espera de nós. Tal como uma criança mimada é aquela de quem se exigio pouco ou nada e uma criança dotada é aquela de quem sempre se exigiu mérito, tal como a irresponsabilidade e a promiscuidade que se atribui vulgarmente aos indivíduos homossexuais deriva precisamente da ausência de uma regulamentação social da sua própria sexualidade e da sua própria família e os condena a um ciclo vicioso de marginalidade no imaginário social também podemos colocar esta questão em relação á raça / cultura dos indivíduos que acaba hoje por estar a funcionar na sociedade ocidental como as castas (inclusivamente no que respeita aos sectores de ocupação laboral , mas claro ,com uma flexibilidade mais do que evidente) nos sistemas sociais indianos.

Seria, pelo menos a meu ver, pertinente colocarmos sob um ponto de vista utópico uma virtual erradicação da referida palavra e estudar hipoteticamente os resultados que esta acção poderia surtir nos grupos que mais se sentem vitimas de racismo.

-- Como reagiriam as pessoas destes grupos na ausência de um marcador verbal diferencial de vitimização perante a sociedade maioritária e opressora?

-- seria possível a construção de uma identidade marcada por perspectivas de um maior igualitarismo ao nível das possibilidades de ascensão social?

-- seria possível a ascensão ao nível médio social e económico destas minorias através da afirmação de um mérito potencial exigido igualmente aos grupos minoritários , agora na ausência dessa palavra facilitadora da exclusão?

-- seria a ausência de distinção / palavra evidenciadora de clivagens uma forma de promover a mudança adaptativa de hábitos culturais ou formas de vida não favoráveis á integração destes grupos na sociedade maioritária, ou era a palavra racismo uma legitimadora da permanência destes mesmos hábitos culturais marginalizantes?

-- ou por ultimo, estaríamos inevitavelmente condenados ao ressurgimento da ideia sob qualquer outra forma sintáctica?

1 comentário:

bela lugosis dead disse...

A questão do racismo não é só cultural, é também biológica. Sou adepto convicto da existência de uma animalidade latente no indíviduo, aparentemente sofisticado e distante dessa sua animalidade. No fundo o homem é mesmo um animal, pelo que dizem, distinguindo-se dos demais por ser racional. Este pormenor do ser racional (será capacidade para pensar??Mas existem tantas formas de pensar...), permite que através da internalização de comportamentos sociais, essa animalidade seja reprimida. Tal é atingido, com relativo sucesso, em períodos de maior disponibilidade de recursos...mas revela-se um flop quando a carência de bens essenciais vem à superfície, aí surge o animal que está em todos nós. No fundo, racismo e outros comportamentos agonisticos...reflectem uma forma culturalmente sofisticada de se ser animal. Será que um cão é racista por atacar outro de outra raça??Não lhe atribuimos esse grau de sofisticação, porque eles são animais e nós gloriosos pensadores à imagem de um deus antropomorfico (Alá, o deuas católico, etc...)que vela pela nossa cultura e segurança, bem como pela nossa superioridade perante todas as outras formas de vida à face do planeta. O que quero dizer, é que desaparecendo a multiculturalidade própria do século XX e XXI, já existiam comportamentos, materialmente racistas para com os da mesma raça...só que adoptados em diferentes circunstâncias, em diferentes planos e gradações. Na ausência de um preto, servirá para exteriorizar a nossa animalidade latente, aqule que possua uma tez de pele ligeiramente mais clara ou escura do que o indivíduo emissor desses sinais, ou até o possui-se cabelo liso ou encaracolado. Se o conceito é criado pela cultura Ocidental, a prática da sua materialidade prévia é universal...é uma condição de subsistência animal...tanto é racista um preto como um branco. Reconhecer essa nossa animalidade, é quanto a mim o caminho para melhor lidarmos com ela. Quanto mais longe dela permanecermos e insistirmos em pintá-la com cores de cultura e racionalidade apenas, contraditoriamente, mais animais ficaremos. Contradições do ser-se homem e mulher, animais e seres culturais.