terça-feira, 3 de abril de 2007

Onde estás?












Ainda a propósito das questões de género tentei elaborar um esquema simples que nos permita desconstruir toda uma lógica binária , decididamente proveniente da educação estatisticamente culturalizada em torno da sexualidade humana.

o objectivo não é só mostrar que necessitamos de passar a pensar a realidade humana em geral e a sua identidade e sexualidade em particular como um continuo, onde cada individuo representa o discreto (num conjunto de possibilidades virtualmente infinitas) mas também esclarecer as dimensões nem sempre bem delimitadas pela nossa consciência acerca do sexo e do género onde deveremos de conseguir isolar as dimensões estruturantes que constituem o todo para assim o podermos compreender em vez de mitificar:

Temos assim em termos genéricos três dimensões fundamentais:

 sexo biológico (embora seja a dimensão mais estática em termos de estatística populacional pois a esmagadora maioria dos indivíduos nasce á partida com um sexo biológico definido e exclusivista: Macho ou Fêmea, existem também indivíduos aos quais chamamos interssexuais em quem convergem genitália e mesmo características sexuais secundárias de ambos os sexos)

 A identidade de género - sendo o ser humano um ser bio-socio-cultural possui a capacidade e a necessidade de deter uma identidade individual que lhe permitirá relacionar-se e ser reconhecido pelos demais indivíduos da sociedade. Muitas vezes um individuo que nasce com um sexo biológico exclusivo não se sente detentor de uma identidade bem como das funções sociais atribuídas a esse sexo biológico sentindo-se sim total ou parcialmente identificado com o outro sexo. A este individuo chamamos transgenero. Sendo impossível alterar a identidade de género de um individuo (ou seja, a componente mental e comportamental da sexualidade) algumas pessoas decidem ser incontornável a transição física (fenotípica) para se sentirem plenamente masculinos / femininos (transexuais)enquanto que outros apenas sentem necessidade de que os outros indivíduos da sociedade os reconheçam e tratem como pertencentes ao seu sexo identitário adoptando para isso posturas e indumentaria socialmente reconhecidas ao referido sexo(travestis por exemplo).

 A orientação sexual . É algo que não devemos de confundir com identidade de género porque são dimensões que se intercrusam. A orientação sexual tem a ver com a capacidade que um individuo tem para se sentir atraído por um ou por outro sexo. Estatisticamente os indivíduos do sexo masculino com identidade de género masculina sentem-se atraídos por indivíduos de sexo biológico feminino igualmente com identidade de género feminina. No entanto existem excepções. Indivíduos com sexo biológico masculino e identidade de género masculina podem sentir-se atraídos por indivíduos com identidade e sexo biológico masculino, o mesmo para o caso feminino. Aqui estamos na presença da homossexualidade. A bissexualidade acontece quando os indivíduos se sentem atraídos pelos dois sexos, mas , mais uma vez não tem de ser em termos de divisão pura ou seja, um individuo não tem de se sentir 50% atraído por homens e 50% por mulheres, muitas vezes a atracção é híbrida no sentido de haver características que os bissexuais sentem como atractivas nos homens e outras nas mulheres.


Vemos assim , com base nestas três dimensões a possibilidade de elaborar uma matriz com três eixos que se entrecruzam e possibilitam a localização sexual e identitária de cada um de nós. a tentativa de um modelo de inclusão ao invés do modelo de exclusão boleano que introduz nos indivíduos frustrações, incompreensões e não aceitações de si desnecessárias. O objectivo será então a elaboração de esquemas que permitam a substituição do pensamento simplista e tendencialmente simplificador da complexidade humana de carácter milenar e até hoje tão inabalável que podemos pelo menos questionar-nos se não consistirá nos dias que correm um verdadeiro handycap binarista para a compreensão de lógicas complexas em muitas outras áreas do conhecimento.

2 comentários:

bela lugosis dead disse...

Com efeito parece-me um instrumento de análise interessante, visto que são necessários arquétipos de análise que nos permitam orientar de forma mais genérica as investigações, para que a partir deles possamos chegar a um conceito menos abstracto, será de certa forma o método dedutivo. No meu caso estou a utilizar mais o método indutivo, partindo do particular para o geral, no entanto creio que em diferentes fazes dos trabalhos, que estas diferentes abordagens podem ser articulados. Devo ainda dizer que todas essas varíaveis estão em constante mutação, respondendo a estímulos internos e externos, mas sem dúvida que o sexo biológico se revela a mais estática, só alterável mediante cirurgia.

sapiens disse...

exacto, a unica coisa realmente inalterável é a componente cromossomática.. para todos os efeitos a maioria de nós encontrar-se-á no eixo do Y nos planos de baixo ou de cima consoante dita o nosso sexo biológico variando bastante nos dois outros eixos.

A questão temporal seria quem sabe uma quarta dimensão , se bem que será em certa medida discutivel.

haverão realmente mutações na nossa constituição psico-sexual? ou estaremos nós constantemente a descobrir coisas escondidas? será um processo de construção ou em vez disso, de descoberta?

Quanto á compomente metodológica sem duvida que optámos, ou fomos conduzidos a adoptar metodologias de aproximação distintas, a verdade é que mais tarde ou mais cedo acabamos por inverter a forma de abordagem. a boa antropologia , tal como indica o próprio metodo , realiza-se na capacidade de establecer pontas entre a teoria e a prática sendo qeu estas podem ser construidas desde a prática até á teoria, ou seja , descobrindo regularidades ou encontrando explicações para os eventos reais, ou por outro lado procurar na realidade as hipoteses ou teorias descritas nos livros. saltitar entre as dimensões parece ser a melhor solução.