domingo, 8 de abril de 2007

Dar e receber no terreno





Na escrita deste post gostaria de trazer de mais uma vez á luz a problemática da nossa dívida para com os nossos informantes.

Como compensar os nossos informantes pelas suas informações e pelo tempo dispendido quando na maioria das vezes essa tão desejada oportunidade não surge e pior... quando é fortemente contrariada pelos mesmos (como julgo já ter referido todos os informantes com quem tive a oportunidade de beber uma cola fizeram questão de ma pagar)?

A resposta pode ser simples... esperar pela oportunidade!

Posso dizer que numa das minhas ultimas entrevistas a oportunidade surgio e tive a possibilidade de "pagar" o tempo do meu informante na mesma moeda de troca, ou seja, tempo (sim porque a sua história de vida é demasiado dispendiosa para a minha parca bolsa... e claro, nenhum antropólogo pode na realidade "pagar"... é uma dádiva a fundo perdido... ou talvez uma semente de esperança que se lança a um futuro melhor e humanamente mais justo).

Mas como ia dizendo a ocasião não poderia ter sido a mais acertada, algo me fez marcar a entrevista para uma altura especialmente problemática da vida do meu interlocutor que me fez sentir que a minha companhia lhe fazia bem, que era importante e que o podia ajudar a falar e reflectir sobre o sucedido... e... assim foi, tornei-me ouvinte para além da temática estritamente combinada da entrevista. Conhecemo-nos ao fim da tarde e só nos despedimos quando a noite e as horas de conversa nos cansaram. Posso concluir que pelo menos em certas ocasiões o nosso tempo e a nossa capacidade de ouvir poderão ser a nossa melhor dádiva.


(Mais uma vez refiro tal como bela lugosis dead no seu comentário ao anterior post que todas estas histórias parecerão vagas pois visam sempre a salvaguarda da identidade dos intervenientes.)


1 comentário:

bela lugosis dead disse...

Na interação que se gera com o informante, dependendo se utilizamos uma metodologia mais intensiva ou extensiva, a confiança será sempre um factor a ter em consideração, no entanto e feita esta ressalva prévia...muitas vezes basta que o antropólogo explique os objectivos do seu trabalho para que as portas se possam abrir, a receptividade, não é todavia sempre igual...não estamos num laboratório de ciências nomotéticas, onde as condições da experiência são controladas ao pormenor e previamente, deixando antever um resultado. Quando a reação é boa, isso quer dizer que a pessoa quer falar e de certa forma até precisa falar e nesse caso a recompensa poderá ser essa mesma (entre outras). Quando a reação não é a mais desejada, não é necessária recompensa, porque o possível interlocutor simplesmente a rejeita. Em última análise, todos os que contribuêm com os seus depoimentos para a produção de algo minimamente relevante, terão na honestidade intelectual e no comprometimento ético do antropólogo, o retorno da sua dádiva, se quisermos a obrigação de retribuir por parte daqueles. São esses informantes, que tornam possível o nosso trabalho, que farão ,pela sua disponibilidade, com que o antropólogo seja o veículo para a transmissão do seu ponto de vista. Comprometimento ético e veículo de e para, os retornos que sempre existirão, desde que da nossa parte exista honestidade e ética para com os indivíduos com os quais inter-agimos.