quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Género e pontos de vista

Judith Butler (1990) considera que o feminismo cometeu um erro ao considerar as mulheres como um grupo de pessoas com interesses e características comuns, fazendo assentar portanto, toda a sua ideologia numa visão binária das relações de género, em que os seres humanos aparecem claramente divididos em dois grupos fechados e delimitados por determinadas características e interesses comuns, assente numa visão patriarcal da sociedade em que feminino e masculino se imporiam inevitavelmente sobre os corpos dos indivíduos, mediante acção da cultura. Voluntária ou involuntariamente, tudo o que não se enquadrasse neste arquétipo de normalidade seria esquisito (queer [Queer Theory, que em rigor ultrapassa as questões referentes aos comportamentos e opções sexuais dos indivíduos, devendo ser enquadrada em correntes de pensamento ocidental contemporâneo que problematizam e colocam em causa conceitos e noções clássicas de sujeito]).


Assim, no seu ponto de vista, as questões de género são fluidas e variáveis consoante os contextos em que se produzem, de alguma forma neste aspecto em consonância com Margaret Mead (1979), a partir da análise de três sociedades na Nova Guiné, Os Tchambuli (actualmente Chambri), os Arapesh e os Mundugomor. Em Sexo e Temperamento (1979) a questão do género e temperamento nos Tchambuli aparece como que invertida face aos valores ocidentais dominantes na América do século XX; os homens dedicavam-se a actividades de ornamentação e de embelezamento corporal, por exemplo, enquanto que as mulheres possuíam um carácter mais prático e virado para o trabalho. Por outro lado, enquanto que nos Arapesh ambos os sexos demonstravam um comportamento pacífico, já nos Mundugomor esta característica era invertida, aparecendo-nos ambos como tendencialmente bélicos.

Ambas as autoras apresentam a questão de género, como susceptível de influências culturais, ultrapassando portanto, a questão meramente biológica. Será pois, presumivelmente, neste vácuo identitário de género, preenchido pelas circunstâncias concretas em que determinado sexo (qualidade de um também determinado indivíduo) recebe as influências de género, que a questão travesti poderá encontrar um dos seus fundamentos ontológicos. Butler afirma:

There is no gender identity behind the expressions of gender; ... identity is performatively constituted by the very "expressions" that are said to be its results.' (1990: 25).

Dito de outra forma, para esta autora a questão do género, não é mais que uma performance, um desempenho de um papel consentâneo com determinado estatuto que aquele lhe atribui previamente (Goffman 1993).
Judith Butler 1990 Gender Trouble
Margaret Mead 1979 Sexo e Temperamento

3 comentários:

Henrik disse...

Não creio que se possa de modo algum reduzir esses comportamentos a factores sociais. Não se pode subsumir um para se contrapor outro. Por exemplo, acho errada toda a propaganda que envolve o tratamento igualitário. Quando digo isto a maioria das pessoas presume imediatamente que estou a assumir uma posição extremista qualquer, o que na realidade é falso. a questão é a seguinte: ter os mesmos direitos NÃO é de todo ser-se IGUAL. Implica somente que o RESPEITO pelos DIREITOS individuais são FUNDAMENTAIS. Mas propagandear uma igualdade é um erro, não há mal nenhum em ser-se diferente, e enquanto não se aceitar a diferença como algo de natural nas sociedades humanas não se poderá discutir saudavelmente. É por isso que julgo que todos os apelos à igualdade têm, de um modo ou de outro, sido mal dirigidos, muitíssimo mal pensados pois é notório que ainda não se entendeu que a diferença não é problema nenhum para a humanidade é na verdade o seu único trunfo e manter-me-ei céptico enquanto as autoridades competentes na matéria não apelarem ao respeito efectivo pela diferença.
P.S. Bom texto!

bela lugosi`s dead disse...

A diferença não deve ser tratada igualmente, simplesmente porque é diferente e o diferente por definição não é igual. Do outro lado estão os que advogam igual tratamento para com a diferença. Termino como muitas vezes, escrevendo: isto é complicado...

Diferentes interesses, tendo por trás dinâmicas de poder assentes em estratégias mais ou menos conscientes. Abraço Henrik

sapiens disse...

Excelente compilação Lughosi:)

Na verdade as diferenças existem sustentadas por pressões evolutivas distintas e isso é tão natural que se torna cientificamente absurdo afirmar o contrário.

No entanto essas mesmas diferenças são em todas as sociedades culturalizadas e inflaccionadas reforçando as diferenças naturais dos individuos, normalizando-os e domando-os por forma a legitimarem com o seu condicionamento ás práticas delineadas para o seu sexo biológico, as ideologias das diferenças já inflacionadas.


Acontece que mesmo quando falamos em diferenças existentes decorrentes dos processos evolutivos da espécie deveremos de ter sempre em conta a derradeira dimensão estatística dessas diferenças. só desta forma poderemos explicar tendencias dominantes no comportamento de um e outro sexo e as excepções estatísticas a esses mesmos padrões por individuos de um e outro sexo que aparentemente se comportam , senten, pensam e agem segundo os padrões dominantes no sexo oposto.

Sem duvida que concordo que o Feminismo, enquanto producto dessa mesma cultura que iflacciona a diferença, tem contribuido para um maior reforço cultural dos papeis de género e das diferenças naturais, por isso mesmo não o prezo a nivel pessoal.

Penso que o caminho correcto para a educação dos individuos e das sociedades deverá de ser feito através da compreensão das várias dimensões que nos compoem enquanto individuos e enquanto animais racionais e sociais confrontando os conhecimentos que detemos actualmente sobre pressões evolutivas, Funções biológicas inerentes a cada um dos sexos,
Necessidades mentais de catalogação e distinção dos géneros, Realidades estatísticas e respectivas excepções a essas estatísticas.

Acredito que só abordando correctamente cada uma destas dimensões será possivel reconhecer-se para se respeitar a verdadeira natureza de cada um de nós.