sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sobre o género, tópicos de reflexão

(…)the law produces and then conceals the notion of a “subject before the law” in order to invoke that discursive formation as a naturalized foundational premise that subsequently legitimates that law´s own regulatory hegemony (Butler).

The sex/gender distinction suggests a radical discontinuity between sexed bodies and culturally constructed genders. Assuming for the moment the stability of binary sex, it does not follow that the construction of “men” will accrue exclusively to the bodies of males or that “women” will interpret only female bodies (idem).

The “coherence” and “continuity” of the “person” are not logical or analytical features of personhood, but, rather, socially instituted and maintained norms of intelligibility. Inasmuch as “identity” is assured through the stabilizing concepts of sex, gender, and sexuality, the very notion of “the person” is called into question by the cultural emergence of those “incoherent” or “discontinuous” gendered beings who appear to be persons but who fail to conform to the gendered norms of cultural intelligibility by which persons are defined (idem).
Aquele a quem falta o falus é aquele que é o falus, aquele que é necessário para a confirmação do próprio falus, por outras palavras aquele que é o falus na sua extensão. A mulher é o falus e não quem o tem. A mulher é o reflexo do poder ilusório da autonomia masculina, ou seja, sem ela esse poder não se confirma.
Let us say that these relations will resolve around a being and a having which, because they refer to a signifier, the phallus, have the contradictory effect of on the one hand lending reality to the subject in that signifier, and on the other making unreal the relations to be signified (Lacan).
The incest taboo presupposes a prior, less articulate taboo on homosexuality. A prohibition against some heterosexual unions assumes a taboo against nonheterosexual unions. Gender is not only an identification with one sex; it also entails that sexual desire be directed toward the other sex. The sexual division of labour is implicated in both aspects of gender – male and female it creates them, and it creates them heterosexual (Butler).

terça-feira, 1 de julho de 2008

Museu digital

Com algum atraso, aqui fica uma informação relevante:

Na próxima Quarta-feira, dia 25 de Junho, pelas 16h00, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra apresenta publicamente o MUSEU DIGITAL, um projecto que visa disponibilizar on-line uma parte significativa do acervo científico da Universidade de Coimbra. Serão disponibilizados 19 000 registos. Esta será a maior base de dados nacional de instrumentos científicos, história natural e etnografia.

O Museu Digital será acessível a partir do site do Museu da Ciência http://www.museudaciencia.pt/.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Gilberto Freyre

Referência biográfica a Gilberto Freyre, inventor do luso tropicalismo, reaproveitado e reinventado por Adriano Moreira, como o modo português de estar. Nascido em 1900, filho de um juiz de direito e catedrático de economia política, inicia o seu processo escolar no colégio americano Gilreath, encetando aquilo que se poderá apodar de uma educação livresca não tropical, aprende latim, francês e em 1930, quando a revolução derruba o regime, freyre que pertencia aos quadros da república velha, segue para o exílio (Castelo 1999:23), e após passagem por África chega a Portugal. Em 1931 lecciona como professor extraordinário da universidade de Stanford, entretanto havia já desempenhado funções oficiais junto das elites Brasileiras, por exemplo como oficial de gabinete do governador de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra. Em 1933 conclui o livro sobre o qual nos debruçamos (casa branca e senzala) e em 1938 é convidado por Oliveira Salazar para ser membro da Academia Portuguesa de História (http://www.releituras.com/gilbertofreyre_bio.asp). A sua formação é ocidental, adapta conhecimentos da sua formação europeia e norte – americana (Castelo 1999:19).

Estas breves referências, de alguma forma dispersas, tem tão somente como objectivo, não o de retirar mérito à obra de inegável valor de Gilberto Freyre, mas sim o de a contextualizar, de chamar à atenção para o facto de pertencer às elites Brasileiras, porventura mais próximas de uma cultura europeia ou norte americana do que Brasileira, o que viria a culminar em 1938 com o reconhecimento de Oliveira Salazar, do seu mérito intelectual, através do convite que atrás fiz referência. Posteriormente e ainda no período de vigência institucional do estado novo, a doutrina de Gilberto Freyre será aproveitada como um elemento definidor do ser-se português, o modo português de estar no mundo (castelo 1999:13). Na actualidade revela utilidade numa identidade nacional que justifica a defesa da maior aproximação aos povos lusófonos, em nome da língua e da história comuns e de uma suposta sintonia cultural e afectiva (idem:13). Poderá ser afirmado que esta teoria de Freyre, ao ser recebida em Portugal, promoveu uma alteração na política e ideologia coloniais do estado novo (idem:14), quanto a esta dois momentos podem ser observados, um primeiro momento, situado nos anos 30 – 40, em que as teses de Freyre são recebidas com muitas reticências; e um segundo momento, a partir dos anos 50, em que o luso – tropicalismo é incorporado e adaptado pelo discurso oficial do salazarismo (ibidem:69), com respectivos usos políticos, desejando:


(…) extrair da sistemática que vimos esboçando sugestões que se apliquem à administração, à higiene, ao ensino, às indústrias, à medicina, à alimentação, à interpretação e orientação das artes, a métodos de catequese, quer da parte de Portugal, nas suas províncias tropicais, quer da parte do Brasil, nas suas áreas de autocolonização e nas suas relações com Portugal e com o ultramar português (Freyre 1958:14).
Castelo, Cláudia 1999 “O modo Português de Estar no Mundo”: O Luso – Tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa, 1933 – 1961, Edições Afrontamento: Porto.
Freyre, Gilberto 2005 Casa – Grande e Senzala, Global Editora: S. Paulo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Psicologia étnica; Dia de Portugal, das comunidades e Camões; possíveis raízes e mecanismos de reinvenção sucessiva.

Com os anos 50 e após o términus da segunda guerra mundial, aceleram-se os processos globalizantes, nomeadamente o desenvolvimento tecnológico que acentua os fluxos de pessoas e capitais, gerando interdependências, remodelando deste modo os conceitos de fronteiras até então construídos. Da facilidade de contacto entre os povos, surge a necessidade destes, de elaborarem novas fronteiras de carácter acentuadamente simbólico (COHEN,BARTH). É nesta ambiência de choque e contrastes ao nível cultural, que os antropólogos vislumbram um novo objecto de investigação, a construção de uma personalidade colectiva capaz de distinguir os povos dos demais, tentando através da sua análise construir um perfil psicológico colectivo ou psicologia étnica que identifique os sujeitos individualmente considerados, num conceito mais lato, o de nação (ANDERSON). No entanto, a génese desta problemática científica, remonta a finais do séc. XIX, data das primeiras emigrações de Portugal para os Estados Unidos (Baganha) e dos primeiros choques culturais.

Em Portugal, o assunto da psicologia étnica é desenvolvido a partir de 1870/80, sensivelmente no momento crucial do “take off” do projecto Antropológico. É o caso de Teófilo Braga, com uma visão simpática dos Portugueses, descrevendo-os como indivíduos orgulhosos, propensos à aventura, de genio imitativo com contornos de fatalismo. Obras de referência são: “A Pátria Portuguesa. O Território e a Raça” ou “ Cancioneiro Popular Português”. Com uma visão mais negativa, aparecem-nos Rosa Peixoto e Adolfo Coelho, o primeiro devido ao seu gosto pela arquitectura, estabelece paralelismo entre o interior das habitações e a alma Portuguesa, que considera rude, indigente, violenta e nada criativa. Na sua obra “Cruel e Triste Fado”, acentua esta visão negativa , apelidando este tipo de canção e o carácter dos Portugueses, como sendo vadio, imundo, hipócrita e malandro. Adolfo Coelho partilha desta negatividade, sendo que de alguma forma se mostra percursor no caminho para a interdisciplinaridade. Mostra-se atento a factores de ordem degenerativa ao nível da psicologia étnica em “Esboço de um Programa para o Estudo Patológico e Demográfico do Povo Português”, 1890. João Leal aponta dois reparos a esta panorâmica, o facto de considerar as reflexões pouco sistémicas e o do seu resultado não apresentar concenso entre os vários estudiosos da época.

A partir de 1950 com o fim da guerra, o boom da emigração de Portugal para a Europa, o início da guerra colonial que possibilitou maior mobilidade dos Portugueses dentro do seu território, florescimento da interdisciplinaridade e a necessidade de afirmação no plano internacional de diferenças estrategicamente elaboradas com fins políticos (COHEN) ou fronteiras simbólicas potenciadoras de um self ascription or ascription by others(BARTH), surge no panorama Português Jorge Dias, que inaugura uma tendência de cooperação entre antropólogos, no caso Margot Dias ou jorge Galhano, que devido ao clima de enorme fluxo de ideias, pessoas e mercadorias viaja pelos E.U.A. , onde adquire alguma visibilidade internacional e de onde resultam influências no seu trabalho etnográfico do Culturalismo Norte Americano, inspirado por exemplo na obra “A Espada e o Crisanto” de Ruth Bendict, onde é descrito o carácter colectivo dos Japoneses, com atavismos nítidos em “Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa”. Saliente-se a sua preocupação em estabelecer uma caracterização do perfil psicológico étnico dos Portugueses, de onde se reflectem evidentes influências de Orlando Ribeiro. Inaugura novos objectos na etnografia Portuguesa, nomeadamente em contextos Africanos, mais concretamente com os Maconde em Moçambique.
No fundo, o que se procurava através da articulação das estratégias não planeadas ou planeadas do povo Português e a visão sobre elas lançada pelos cientistas, era a invenção de um “do it yourself kit”(Orvar Lofgren) passível de ser transportado por um discurso político, do tipo “banal nationalism”de Billig, para as mais profundas raízes étnico-psicológicas através de um processo de socialização, transmitido mediante massificação cultural e que aglomerasse em torno de símbolos, essa essência "do ser português",transformando-a em algo de “genuinamente” nacional ou seja uma representação com convicção e consenso de realidade generalizada.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Afinal em que consiste a antropologia?

Pois bem, pelo meio das minhas viagens na antroposfera fui dar a um sítio, que em poucas palavras responde à pergunta/s de alguns, que porventura se baralham quando entre referências a pessoas, grupos de pessoas, grupos "sócio-históricos", sociedades, etc..., verificam que aparecem primatas ou até mesmo cadáveres milenares, dos quais só restam os esqueletos e todos ou alguns dos ossos que os compõem...dêem uma olhada, pode ajudar: http://www.zaz.com.br/voltaire/cultura/2002/06/07/001.htm

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Investigadora portuguesa descobre quebra-nozes complexo feito por chimpanzés

Um estudo realizado por uma investigadora portuguesa na floresta de Bossou, na Guiné-Conakry, no âmbito de um trabalho de equipa luso-japonês, descobriu o quebra-nozes de pedra mais complexo construído por chimpanzés selvagens até agora encontrado. "Trata-se de um quebra-nozes constituído por quatro elementos de pedra, um martelo, uma bigorna e dois calços, quando até agora só eram conhecidos instrumentos com três componentes", explica Susana Carvalho, estudante de doutoramento na Universidade de Cambridge e primeira autora do estudo, a publicar na próxima edição impressa da revista científica Journal of Human Evolution e já disponível online.
O estudo, que resultou de um trabalho de campo realizado em Bossou entre Janeiro e Maio de 2006, combinou técnicas de arqueologia e primatologia e juntou investigadores da Universidade de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Quioto (Japão). Para Susana Carvalho, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra, a capacidade cognitiva necessária para combinar simultaneamente quadro pedras e uma noz "indicia que os chimpanzés são capazes de complexificar mais o seu comportamento durante a utilização de ferramentas de pedra do que se pensava". Cláudia Sousa, especialista em primatologia na Universidade Nova de Lisboa e co-autora do trabalho, disse à agência Lusa que este confirma "as semelhanças entre as ferramentas de pedra criadas pelos chimpanzés e os artefactos de pedra usados pelos primeiros hominídeos, há 2,5 a 2,6 milhões de anos". Esta docente do Departamento de Antropologia da UNL, que desde 2001 faz trabalho de campo periódico em Bossou, perto da fronteira da Costa do Marfim e da Libéria, sublinhou que aquelas semelhanças são especialmente evidentes nas características físicas das pedras usadas nos instrumentos. Outra das novidades do estudo foi mostrar que os chimpanzés utilizam, seleccionam e reutilizam as mesmas ferramentas durante períodos longos de tempo, num processo que se inicia com a escolha das pedras e termina com o seu abandono quando deixam de servir para a função pretendida. Além disso, salienta-se nas conclusões do trabalho, o comprimento, a largura e o peso das pedras determina que estas sejam usadas ou como martelo ou como bigorna ou calço. A equipa verificou ainda que os chimpanzés transportam as pedras de uns locais para outros, mesmo quando são pesadas, o que sugere um sentimento de posse por certas ferramentas e uma percepção da relação qualidade-eficiência das ferramentas. Na perspectiva de Susana Carvalho, esta observação reforça a ideia de que estes chimpanzés agem "de forma mais próxima ao nosso ancestral comum, no que diz respeito às primeiras tecnologias". O trabalho contou com a colaboração do Professor Tatsuro Matsuzawa, do Primate Research Institute da Universidade de Quioto, que desde 1976 investiga a inteligência, o comportamento e a cognição nos chimpanzés selvagens - referiu Cláudia Sousa, que estudou durante mais de quatro anos naquela universidade, onde terminou o mestrado e concorreu ao doutoramento em Ciências Biológicas e Primatologia. Participou também no trabalho, como orientadora, a antropóloga Eugénia Cunha, docente do Departamento de Antropologia da faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Cláudia Sousa está a trabalhar noutro projecto de investigação em África, nas florestas da região costeira do sudoeste da Guiné-Bissau, que visa estudar a distribuição das comunidades de chimpanzés naquela área, onde estão ameaçados pela perda de habitat resultante de actividades agrícolas, e a sua relação com as comunidades humanas locais.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Seminário

Publico um mail que me foi enviado e que acho relevante:

Convite
Seminário
Venho convidar para a próxima sessão do seminário do NEANT, que terá lugar na quinta-feira, 29 de Maio, às 11:00, na sala C201 – Edifício 2 do ISCTE, para apresentação e discussão de uma comunicação de Ricardo Sobral sobre:
"A bicicleta na cidade de Lisboa: contribuição para a implementação e promoção do uso da bicicleta como meio de transporte urbano",
tema do seu estágio de conclusão da licenciatura em antropologia (FCSH-UNL), realizado na Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores da Bicicleta (FPCUB).
-- Utilize a bicicleta na cidade. Saiba como:http://bicicletanacidade.blogspot.com/

sexta-feira, 16 de maio de 2008

sujeitos

Stuart Hall concebe três tipos de sujeitos sob uma perspectiva diacrónica, o sujeito iluminado (racional e individualmente unificado), o sujeito sociológico cuja identidade se constrói na relação constante com os outros e o sujeito pós- moderno, identidade desfragmentada e sentimentos de pertença múltiplos. Em qual te incluis?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Gisberta num mundo de justiça hetero

Um ser humano como outro qualquer, sensível à dor, à tortura, provavelmente à ausência de familiares, porém travesti numa sociedade de justiça hetero. Um ser humano brutalizado e antes de definhar, violado na sua consciência íntima por uma humilhação que, apenas encontrou limite, numa morte solitária no fundo de um buraco enlameado. Por sentença transitada em julgado de menores, os responsáveis são condenados a penas que oscilam entre os 6 e os 13 meses, ao que julgo saber em "casas de correcção", de onde alguns já eram provenientes (ou até todos). A relação com "o outro", com o diferente, encontra aqui mais um dos seus fundamentos, a própria oposição negativa da justiça e o carácter contraditorio dos seus valores. Estranho neste momento, que o Sr. ministro da agricultura não venha anunciar publicamente e de forma mediática, um despacho prevendo a esterilização de quem cometeu esse crime, que na escala criminológica parecem constar como não sendo "potencialmente perigosos". Este facto demonstra a ambivalência do mundo em que vivemos e em que sempre se viveu, o carácter relativo da justiça e do valor da vida humana, em suma o conteúdo mutante e extremamente manipulativo das sociedades humanas.

terça-feira, 18 de março de 2008

A agricultura e as suas pestes

O País em que um cão é mais perigoso e responsável que um pedófilo. O país em que um julgamento sobre pedofília se arrasta há cinco anos e em que a maior parte dos arguidos aguarda julgamento em liberdade, simplesmente porque possuêm dinheiro, o país em que a condução embriagada é um hábito comum, o país em que a posse e venda de armas de fogo se tornou banal, o país em que as claques de futebol se degladeiam, ofendem e agridem, o país em que se atribui habitação social a quem possui BMW ou mercedes, o país em que o CDS é igual ao PS, o país em que a ignorância assusta, o país em que o consumo de álcool é elevadíssimo e de onde resultam agressões e lesões, o país onde a polícia faz segurança privada a discotecas, o país em que seguranças privados caem que nem tordos nas noites, o país onde velhas vendem droga, onde seres humanos se degradam por causa dela, o país em que ninguém aplicou as anteriores leis sobre cães potencialmente perigosos, o país em que putos de bairros sociais passeiam soltos os seus animais mal tratados e repletos de cicatrizes na sua "face" canina resultado das lutas que só alguns não querem ver, nem parar, o país bipolar, país do oito ao oitenta, da depressão à euforia, da omnipotência à angústia, o país maniaco-depressivo, o país em que um cão é mais responsável que um homem, o país em que a qualquer momento um ministro da agricultura pode ser gestor da caixa geral de depósitos . Se os animais falassem, chamariam a muitos destes políticos-Filhos da puta!!- e provavelmente diriam- nós é que estamos entregues aos bichos!
"O grau de civilidade de um país pode ser aferido pela forma como trata os seus animais" - Mohandas Karamchand Gandhi

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Abordagem EMIC / Abordagem ETIC - duas formas de fazer antropologia


Emic e Etic, termos sugeridos pelo linguista Kennet Pike em 1954, procuram establecer uma distinção entre as abordagens que a antropologia pode adoptar aquando da análise de um mesmo objecto. Esta Distinção poderá ser feita de acordo com a seguinte tabela sugerida por Carlos Reynoso em "Correntes em antropologia Contemporânea".


Comparativistas--------------------------Particularistas
Ideal das ciencias naturais------------Ideal das humanidades
Busca da explicação--------------------Busca da compreensão
Sintese comparativa -------------------Análise do particular
Busca de leis gerais ---------------------Registo de casos unicos
Tendencia para o materialismo -------Tendencia para o idealismo
Abundante reflexão metodológica -----Atitude anti-teórica
Etnologia-----------------------------------------Etnografia
Procura traços comparáveis------------Procura a cultura em sí mesma
Desenvolvimento quantitativo ------------Exaltação do qualitativo
Enfase nas corelações impessoais-------Recuperação do individualismo metodológico
Formalismo -----------------------------------Substantivismo


Relativamente ás correntes e abordagens podemos facilmente acrescentar:

ETIC ---------------------------------------------EMIC
Estruturalismo e funcionalismo --------Culturalismo
Tendencia biologizante ------------------Tendencia psicologizante
Da parte para o todo ---------------------Do todo para a parte


Estas diferentes abordagens, perante os mesmos objectos de estudo, têm produzido correntes, conteúdos e resultados cientificos distintos. Enquanto que uma abordagem ETIC está tendencialmente mais ligada á antropologia biológica, á mental binarista bem como a toda aquela que pretende descobrir / formular os grandes postulados do comportamento humano, a abordagem EMIC procura encontrar a especificidade de cada aspecto do individuo e da sua cultura, constituindo em ultima instancia muita da matéria prima utilizada pelos estudiosos que recorrem á abordagem ETIC.

Enquanto que a abordagem ETIC procura medir, comparar e esquematizar lógicamente a realidade sem recurso á subjectividade discursiva dos individuos, a abordagem EMIC procura descobrir as especificidades de cada contexto em particular, recorrendo inclusivamente á interpretação nativa dos factos.

A antropologia apresenta-se assim como uma ciência charneira entre as ciencias exactas e aquelas que até hoje são consideradas não exactas por carecerem da quantificação subjacente á definição do termo.

Desta forma a Antropologia enquanto ciencia terá uma definição ampla assente em multiplas plataformas teóricas e metodológicas onde cada um de nós poderá ir ao encontro quer de particularidades quer de universalidades oscilando entre todas as oposições que a própria dualidade humana implica.

Livros e artigos online


O Blog Antropo-Reflexoes tem uma nova secção.
A partir de agora serão disponibilizadas algumas obras Antropológicas em formato PDF na secção "Livros e artigos cientificos online"

Esperemos que vos sejam úteis


Boas Leituras

:)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Genocidios de povos indigenas ao longo do século XX

Group Name - Country - Date(s)

Africa

Bubi - Equatorial Guinea 1969–79
Dinka,Nuer - Sudan 1992–93
Herero - Namibia 1904–7
Hutu - Burundi 1972,1988
Isaak - Somalia 1988–89
Karimojong - Uganda 1979–86
Nuba - Sudan 1991–92
San - Angola,Namibia 1980–90
Tuareg - Mali,Niger 1988–90
Tutsi - Rwanda 1994
Tyua - Zimbabwe 1982–83


Asia and the Pacific

Armenians - Turkey 1915–18
Atta - Philippines 1987
Auyu - West Papua,Indonesia 1989
Cham - Kampuchea (Cambodia) 1975–79
Dani - Papua New Guinea 1988
H’mong - Laos 1979–86
Kurds - Iraq 1988,1991
Nasioi - Bougainville,Papua N.G. 1990–91
Tamil - Sri Lanka 1983–86
Tribals - Chittagong Hills,Bangladesh 1979–present



Latin America and the Caribbean


Ache - Paraguay 1966–76
Arara - Brazil 1992
Cuiva - Colombia 1967–71
Mapuche - Chile 1986
Maya Indians - Guatemala 1964–94
Miskito - Nicaragua 1981–86
Nambiquara - Brazil 1986–87
Nunak - Colombia 1991
Paez - Colombia 1991
Pai Tavytere - Paraguay 1990–91
Ticuna - Brazil 1988
Yanomami - Brazil 1988–89,1993


North America

Indians - United States,Canada 1500s–1900s



Totten, Samuel, Et. al Confronting Genocide and Ethnocide of Indigenous Peoples - An interdisciplinary Approach to Definition, Intervention, Prevention and Advocacy
In Annihilating Difference - The anthropology of Genocide (2002) by Alexander Laban Hinton

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A riqueza das nações, Adam Smith. Breve resenha histórica da economia e dos fundamentos do economicismo

Viver em sociedade pressupõe disponibilidade para o intercâmbio que, por razões que lhe são imanentes, conduziu o homem, enquanto espécie considerado, à divisão do trabalho. Tal princípio ocorre tão naturalmente como a aprendizagem da língua. Ao nível da economia, a divisão do trabalho é a grande causa do aumento da capacidade produtiva e ocorre primordialmente em momentos de estabilidade social, evoluindo tendencialmente para novas subdivisões, como elos de uma corrente que se acrescentam, sem se excluírem. Adam Smith começa por se referir às artes insignificantes, que na sua óptica são aquelas que suprem as necessidades de grupos reduzidos. Exemplifica com a produção de alfinetes, em que o número de trabalhadores é baixo, o que considera ser consequência da especialização do trabalho. Neste tipo de produção assiste-se à execução, pelo mesmo sujeito, de duas ou três tarefas distintas, não correspondendo por isso à divisão do trabalho strictu sensu, implicando de qualquer forma um já apreciável aumento de produtividade. A estes ofícios menores, assim considerados sob um ponto de vista economicista, em virtude do escasso mercado a que correspondem, opõem-se as grandes industrias que visam satisfazer necessidades em larga escala, para as quais existe um vasto mercado a preencher.Nestas, o processo produtivo exige um número maior de indivíduos, sendo que, nestes casos a divisão do trabalho é maior, apesar da sua menor visibilidade, devida à superior dispersão dos trabalhadores, que pela sua quantidade não caberiam numa só oficina.
O que se verifica, é que em ambos os casos a divisão do trabalho, seja em que grau for, acarreta sempre um aumento dos poderes produtivos do trabalho. Este princípio é característico das sociedades mais ricas e opulentas em termos económicos. Adam Smith, aponta igualmente, diferenças práticas do referido princípio, conforme se aplique à agricultura ou à indústria. A agricultura está condicionada pela sazonalidade que lhe é inerente, o que por motivos economicistas lógicos, impede o empresário agrícola de manter um homem constantemente empregado numa função que carece de regularidade, pelo carácter cíclico das estações. Ou seja nas sociedades mais ricas, a solos mais férteis, maior capacidade produtiva, maior investimento não corresponde necessariamente a colocação de produto mais barato no mercado, na medida em que o princípio da divisão do trabalho é condicionado pela sazonalidade específica dessa produção agrícola. Deste modo, segundo Adam Smith, a concorrência dos países mais pobres com os mais ricos sofre menos restrições, sendo possível por parte dos primeiros a colocação de produtos no mercado a preços concorrenciais. Assim, temos que a divisão do trabalho gera aumento da quantidade de trabalho, a qual é explicável pela relação que se estabelece entre os seguintes factores:
- Aumento da destreza do trabalhador.
- Poupança do tempo que se perde ao passar duma actividade para outra.
- Invenção de um grande número de máquinas que facilitam e reduzem o emprego de energia humana, de tal forma que um só homem realiza o trabalho de muitos.
Na altura em que Adam Smith, editou a obra de que nos ocupamos, já a primeira fase da revolução industrial estava em curso, o ferro, os tecidos, o vapor, estavam já em franco desenvolvimento, no que à sua utilização diz respeito. Os movimentos protestantes de Calvino, e em menor escala Lutero introduziram com o renascimento a especulação com os juros bancários, uma outra significação foi atribuída ao trabalho, a vocação e a devoção eram a forma de realizar os desígnios de Deus em terra ( WEBER, 1996 [1905]: 57). Aproximava-se a revolução Francesa de 1789, grandes filósofos como Kant reestruturavam a relação dos sujeitos com os objectos (Revolução Coperniciana), Hegel um pouco mais tarde, com o seu colectivismo metodológico, abarca todas as áreas de acção humana no espírito mundial, que progride com racionalidade histórica, e se é racional, contém implicitamente um certo grau de previsibilidade (o padrão da lógica é a matriz económica, Shumpeter), ao qual se acrescenta o materialismo histórico de Karl Marx, com profundas consequências na economia, doravante equacionada como intimamente relacionada com os elementos históricos e sociais, sendo que o valor da mercadoria está na quantidade de trabalho socialmente necessária para a produzir, o que, já no séc.XX viria a ter actualização e desenvolvimentos com “Les annales d`his toire économique et social”, onde desempenham papel de relevo Lucien Febvre, Marc Bloc e Braudel.
Nesta ambiência, distingue-se o trabalho produtivo do não produtivo, os rituais característicos da ciclicidade agrícola sofrem severos danos na sua estrutura, a racionalidade, o cálculo, o economicismo (BOURDIEU, 2002 [1972]: 242-247) transformam os seus contornos, o capital simbólico não desaparece mas, reformula-se. Durkheim, no trabalho que constituiu a sua tese de doutoramento, “Da Divisão Social do Trabalho”, refere-se às sociedades de solidariedade mecânica como aquelas em que cada um desempenha qualquer função, por oposição à solidariedade orgânica em que se assiste à especialização de funções como consequência das variáveis independentes, volume, densidade material e densidade moral que produzem variáveis dependentes como a arte, o direito, a economia, etc…Estas variáveis são dependentes porque residem no individuo, quanto maior for o seu número, maior será a divisão social do trabalho. Para Durkheim a economia constitui o sector mais profano das actividades do ser social, e na sua lógica de consenso, propõe as corporações como forma de mitigar os conflitos e anomias dela resultantes. Na economia ocupa lugar de destaque o contrato, também a ele Durkheim presta atenção, sem no entanto fugir aos pressupostos do seu pensamento. A sociedade pré-existe ao individuo, é dela que surge a divisão do trabalho e como sequência destas o contrato, como forma de regular juridicamente uma tendência natural da sociedade. Considero que neste aspecto, Adam Smith partilha destas ideias, visto que, também ele faz derivar da cooperação, acto só possível em sociedade, a divisão social do trabalho. O comportamento económico não é um acto de altruísmo, baseia-se no cálculo das minhas necessidades e na forma de as suprir, recusando o desperdício (NEVES, 1994: 29), através do relacionamento com o outro. Não é da boa vontade do homem do talho, que posso esperar ter um bife à mesa, mas sim do seu interesse (NEVES, 1994). Neste sentido, a construção racional baseada na ideia de que a antropologia surge para diminuir a questão entre o eu e o outro, o nós e o eles, (CASAL, 1996: 12), faz todo o sentido na abordagem antropológica das questões relacionadas com a troca, sendo que a economia não se resume às trocas financeiras, a decisão de ler um livro ou ir ao cinema, envolve igualmente custos e benefícios, que o agente pode e deve ponderar. Talvez a antropologia, consiga incutir um pouco de bom senso e humanismo, refreando o ímpeto do imperialismo economicista que se abate sobre as sociedades contemporâneas (NEVES, 1994: 15-17). Sendo relevante realçar, que a divisão do trabalho não opera em exclusividade na economia, fá-lo igualmente relativamente a outras instituições sociais, como a família, as escolas, etc..., pelo que se considera um fenómeno social total (Marcel Mausse), exigindo a interdisciplinidade para a sua compreensão. Esta tendência errada, para ver a economia como exclusivamente ligada às escolhas materiais (Neves, 1994: 13), decorrerá provavelmente, de um crescente consumismo, que fez com que ao longo de dois centúrios, a teoria do valor, que o incorporava na própria mercadoria sob a forma de unidades de trabalho/tempo, se deslocasse para uma teoria de pendor subjectivo, em que valor reside na utilidade que essa mercadoria tem para quem a consome, esse processo inicia-se com a escola de Viena, desenvolvendo-se com Stanley Jevons, Walras (Esc.Lausanne) e Alfred Marshal, atribuindo este, especial relevo à racionalidade e equilíbrio da decisão económica.
SMITH, Adam (1999 [1776]) ”Da Divisão do Trabalho” in A Riqueza das Nações, Vol. 1, Lisboa, Edições Calouste Gulbenkian, pp.77-91.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Antroposfera

É com prazer que verifico que se multiplicam na net blogs de conteúdo antropologico ou com esta actividade relacionados, é positivo e demonstrativo de alguma vitalidade no meio. Alguns têm uma óptima qualidade, não desmerecendo os demais, um sobressaiu, captando de imediato e minha atenção, a saber, o "comunidade imaginada". Nos meus passeios cibernauticos deparei-me com outros factos interessantes, nomeadamente a existência de blogs que para além de cumprirem a sua função enquanto tal, constituem-se como instrumentos adicionais de comunicação entre professor e alunos (do autor da oficina da etnografia) , gostei da ideia, embora a minha opinião seja completamente irrelevante. Nos antípodas, verificamos a existência de um outro tipo de blogs, que como todos os outros nascem da necessidade consciente ou inconsciente da troca (comunicação) de palavras, entre quem escreve os posts e quem comenta ou apenas lê, só que neste caso revelando-se como veículos de auto-promoção e simultâneamente como palcos de difusão de ideologias políticas e muitas vezes posicionamentos sociais, tendencialmente ideológicos, revelando enraizadas dinâmicas de poder não assumidas publicamente, enquanto tal, no próprio blog. Seja como for, todos eles revelam que a antropologia está viva, seja através dos aspirantes a antropólogos, antropólogos, professores ou gerontes da antropologia, detentores dos seus (da antropologia) objectos sagrados, no fundo os sacerdotes a quem se deve um respeito especial. O que interessa é que todos andamos por aí e isso é bom.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Ano novo e mais do mesmo

Ano novo, vida nova...ou talvez não, não tenhamos ilusões. As pessoas apenas se movem, sem consciência que apenas executam o que lhes é permitido fazer, ainda que usufruindo ilusoriamente de uma sensação de liberdade. Parafraseando alguém com enorme importância na minha formação académica e antropológica: "aquilo que verdadeiramente distingue o homem do macaco é a sua capacidade de se iludir".
Iludimo-nos com as democracias, com a liberdade de voto, com alguns euros no bolso (ou outra moeda), com um casamento sumptuoso, enfim...esquecemos que talvez nunca tenhamos sido tão dominados pela liberdade falada, escrita e propagada. O petróleo sobe em flecha, em seu nome e em parte, são levadas a cabo novas e "civilizadas" cruzadas, sublimando heróis e inventando vilões. Mata-se em nome da justiça e da democracia, como se ambos fossem produtos naturais e não historicamente criados, algo de inato ao ser-se humano, mas infelizmente não humanista. Mais um ano de ilusão profunda, disfarçada pela aquisição de um carro topo de gama ou por uma viagem há muito esperada, outros, os menos afortunados, por umas idas à praia de carcavelos ou com a aquisição de um carro usado. No fundo...todos diferentes, mas todos iguais, tentando apaziguar a contradição imanente à condição de nos iludirmos e pintarmos o mundo de diferentes cores, num palco de lutas múltiplas de intersubjectividades acrescidas, pelo desconhecimento do outro, começando na maior parte dos casos pelo vizinho do lado (mais um lugar comum...que se lixe!). Em suma...mais uma ano em que aquilo que verdadeiramente nos pode fazer felizes, a capacidade de nos iludirmos, pode também constituir a nossa maior fragilidade: a desilusão. A contradição imanente a sermos humanos, manifestando-se no princípio e no fim, ainda que elevado ao absoluto, o próprio fim seja apenas parte do infinito. Bom ano!(Bahh!!mais um lugar comum...que merda!Os lugares comuns perseguem-me)...

domingo, 23 de dezembro de 2007

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Género e pontos de vista

Judith Butler (1990) considera que o feminismo cometeu um erro ao considerar as mulheres como um grupo de pessoas com interesses e características comuns, fazendo assentar portanto, toda a sua ideologia numa visão binária das relações de género, em que os seres humanos aparecem claramente divididos em dois grupos fechados e delimitados por determinadas características e interesses comuns, assente numa visão patriarcal da sociedade em que feminino e masculino se imporiam inevitavelmente sobre os corpos dos indivíduos, mediante acção da cultura. Voluntária ou involuntariamente, tudo o que não se enquadrasse neste arquétipo de normalidade seria esquisito (queer [Queer Theory, que em rigor ultrapassa as questões referentes aos comportamentos e opções sexuais dos indivíduos, devendo ser enquadrada em correntes de pensamento ocidental contemporâneo que problematizam e colocam em causa conceitos e noções clássicas de sujeito]).


Assim, no seu ponto de vista, as questões de género são fluidas e variáveis consoante os contextos em que se produzem, de alguma forma neste aspecto em consonância com Margaret Mead (1979), a partir da análise de três sociedades na Nova Guiné, Os Tchambuli (actualmente Chambri), os Arapesh e os Mundugomor. Em Sexo e Temperamento (1979) a questão do género e temperamento nos Tchambuli aparece como que invertida face aos valores ocidentais dominantes na América do século XX; os homens dedicavam-se a actividades de ornamentação e de embelezamento corporal, por exemplo, enquanto que as mulheres possuíam um carácter mais prático e virado para o trabalho. Por outro lado, enquanto que nos Arapesh ambos os sexos demonstravam um comportamento pacífico, já nos Mundugomor esta característica era invertida, aparecendo-nos ambos como tendencialmente bélicos.

Ambas as autoras apresentam a questão de género, como susceptível de influências culturais, ultrapassando portanto, a questão meramente biológica. Será pois, presumivelmente, neste vácuo identitário de género, preenchido pelas circunstâncias concretas em que determinado sexo (qualidade de um também determinado indivíduo) recebe as influências de género, que a questão travesti poderá encontrar um dos seus fundamentos ontológicos. Butler afirma:

There is no gender identity behind the expressions of gender; ... identity is performatively constituted by the very "expressions" that are said to be its results.' (1990: 25).

Dito de outra forma, para esta autora a questão do género, não é mais que uma performance, um desempenho de um papel consentâneo com determinado estatuto que aquele lhe atribui previamente (Goffman 1993).
Judith Butler 1990 Gender Trouble
Margaret Mead 1979 Sexo e Temperamento

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Como se casa (ou não) em Portugal

Acompanhei de perto um processo de casamento entre um cidadão português e uma cidadã brasileira, o que passo a relatar delimita a ténue linha entre o sim e o não; após se terem dirigido ao cartório na Avenida Fontes Pereira de Melo, onde se encontram agora concentradas todas as conservatórias de Lisboa, foi-lhes facultada numa dessas conservatórias a informação de que eram necessários três documentos para a cidadã brasileira poder contrair matrimónio civil com o tuga, a saber; certidão de nascimento tirada no Brasil e autenticada num consulado português nesse território, certidão de nacionalidade emitida pelo consulado do Brasil em Portugal e finalmente uma certidão provativa do seu estado civil. Em contacto telefónico mantido com o consulado português em Salvador, são informados que a autenticação da certidão de nascimento só poderia ser realizada perante a certidão do estado civil. Óptimo!!Então tiravam-se as duas de uma vez só e levavam-se ao consulado. No consulado tudo correu bem e a papelada é enviada para Portugal onde se iria juntar ao certificado de nacionalidade. Já tinham tudo, dirigem-se então a uma das conservatórias, onde uma funcionária emproada (emperuada??) começa a observar os documentos com ar de conhecedora (faltavam-lhe os bigodes para acariciar com os dedos), parecia uma escanção com profunda experiência na matéria...Opss!! Franziu a testa e logo de seguida o nariz...epah!!!
- Este certificado não está correcto- referia-se àquele que o consulado português tinha exigido para poder autenticar a certidão de nascimento, tendo-o feito efectivamente.
O português responde- ahhh deve ser a isso que se referem quando falam em poderes discricionários do estado, né??
- Não!!-diz ela com um ar experiente e dominador- depende da interpretação que o conservador fizer da lei!!-agora digo eu...mas ela não era conservadora...porque não o/a questionou sobre isso?Será a isso que se referem como delegação de poderes??hum... o português vira-lhe então as costas (um tipo malcriado depois de ser tão bem atendido), a cidadã brasileira ainda a atura mais um pouco, quase chorando perante tão grande demonstração de sabedoria e poder. Ele aguardou-a à porta da dita conservatória e quando ela saíu da sala da sabedoria administrativa e de interpretação de leis por uma SENHORA escrivã, disse-lhe para tentarem outra das conservatórias e assim fizeram.
Entram...receosos...afinal de contas eram os prevaricadores, mas um senhor super bem disposto atende-os, olha para os papéis e desde logo coloca de parte o motivo da todas as ilegalidades, o certificado do estado civil da senhora, dizendo - este não é necessário, pois sem ele o consulado português não teria autenticado a certidão de nascimento.
Observando, pensei...Isso é um sim?? Sejam pois felizes para sempre, o matrimónio está consumado!!! Fontes próximas informaram-me que também rato (uma das condições católicas para o casamento ser válido), ahh!!ok...Rato neste caso significa...como hei-de dizer??hum...com lua de mel realizada e praticada...pois é isso mesmo. Conclusão da história, afinal o SIM já não depende só dos noivos na 6ª conservatória do registo civil, na Avenida Fontes Pereira de Melo, há sempre que contar com o NÃO de algumas funcionárias ciumentas e profundamente conhecedoras da interpretação (do espírito e letra) da lei que o conservador realiza. Será que se o tuga lhe tivesse falado no espírito da lei, ela acreditaria na vida para além da morte dos códigos e das inúmeras letras que os compõem??

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Tropa de Elite



Atenção: Antes de carregar no play do video abaixo certifiquem-se de que as colunas têm o Bass no máximo. ;)






Quem já teve o prazer de visionar o filme: "Tropa de Elite" , simultaneamente homologo e antipoda (dependendo da perspectiva) do Galardoado "Cidade de Deus", terá tido a oportunidade de mais uma vez reflectir sobre a temática da violencia no Brasil, abordada no post anterior pelo colega Lughosi.

De facto a realidade da favela parece perpectuar-se numa eterna luta entre lugares, posições , planos e perspectivas por parte dos cidadãos brasileiros, quase sempre com base no lugar onde se nasce seja ele fisico, economico ou cultural. Desta forma se constroem e celebram discursos de distinção e repudio de parte a parte. No video escutamos o discurso construído de dentro para fora da favela. Para conhecermos melhor não só o discurso e o ataque elaborado de fora para dentro, bem como toda uma dinamica relacional e funcional transversal á sociedade brasileira, aconselho vivamente o visionamento deste filme de excelencia.

domingo, 25 de novembro de 2007

Racionais MC's Homem na Estrada




Actualmente no Brasil, o hip hop combina-se com os movimentos evangélicos, nas igrejas "louva-se a deus" cantando-o através deste ritmo. Através dele, deus chega a criminosos que se convertem ou re-convertem. Sincretismos. O "bem" e o "mal" lado a lado. Deus desceu à favela. A violência é brutal. A música regista a dinâmica, é o seu próprio rosto. Music for the people.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Cognitividades impensáveis

Pegando num dos aspectos, do anterior post da sapiens, a massificação do ensino que, como tal, produz em consequência, determinados arquétipos de inteligência padrão e instrumentos igualmente padronizados de análise dessa mesma inteligência, algo já vaticinado pelos jurássicos pink Floyd em another brick in the wall, seria também interessantes referir que, em paralelo, se dinamizam fenómenos de deseducação massificada, em que agentes infinitamente mais poderosos economicamente, com um outro tipo de linguagem, muitas vezes recorrendo à comunicação subliminar, facilitada de forma exponencial pelos meios audio visuais, veêm a sua tarefa atingir niveis de sucesso bem mais elevados.
Alunos da educação massificada: ousem colocar tudo ao contrário, relativamente à forma como vos foram transmitidos conhecimentos e experiências, nem que seja como exercício de desconstrução, tipo lego. Este natal ofereçam legos cognitivos aos vossos familiares e amigos, façam aquilo que é conhecido como: partir a cabeça toda, sem no entanto recorrer à violência.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Inteligencias Multiplas



Eis um texto interessante que gostaria de partilhar sobre a teoria das inteligências Múltiplas desenvolvida a partir da década de 80 por uma equipa de investigadores da universidade de Harvard, liderada pelo psicólogo Howard Gardener. O texto que apresento abaixo é um resumo dos princípios expostos inicialmente em Gardner, H. (1985). The Mind's New Science: A history of the cognitive revolution.

Gardener critica fundamentalmente a existência e a mensurabilidade de uma inteligência Única tal como a consideramos tradicionalmente:

A sua insatisfação com a ideia de QI e com visões unitárias de inteligência, fixadas sobretudo nas habilidades importantes para o sucesso escolar, levou Gardner a redefinir inteligência à luz das origens biológicas da habilidade para resolver problemas.

De acordo com a visão tradicional a inteligência foi conceptualizada como a capacidade de responder a testes de inteligência e o Q.I. (quociente de inteligência) procuraria demonstrar uma faculdade geral da inteligência que não mudaria muito com a idade, treino ou experiencia sendo considerada um atributo ou faculdade inata a cada ser humano.

Gardner procurou ampliar este conceito definindo inteligência como a capacidade de solucionar problemas ou elaborar produtos que são importantes em um determinado ambiente ou comunidade cultural: "um potencial biopsicológico para processar informações que pode ser activado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura".


Para Gardner existem 3 tipos de preconceitos na sociedade actual que acabam por ter impacto nas vidas práticas dos individuos.


•O preconceito Ocidentalista: que coloca certos valores culturais ocidentais como o pensamento lógico num patamar hierárquico superior para a construção da inteligencia.

• o preconceito “Testista”: que sugere sugere uma focalização dos testes e da mensurabilidade daquelas habilidades que podem ser prontamente testadas como a realização de operações matemáticas.

• O preconceito “Melhorista”: assente na crença de que todas as respostas para um dado problema residem apenas numa determinada abordagem, como por exemplo no pensamento lógico-matemático.



Também idealista, o autor acredita que se pudéssemos mobilizar toda a gama das inteligências humanas e aliá-las a um sentido ético, talvez pudéssemos ajudar a aumentar a probabilidade da nossa sobrevivência neste planeta, e talvez inclusive contribuir para a nossa prosperidade.


Preocupando-se também e concretamente com aquelas crianças que não brilham nos testes padronizados, e que, consequentemente, tendem a ser consideradas como não tendo nenhum tipo de talento, Gardener Sugere um novo modelo de ensino e em certa medida um novo conceito de escola que assenta em algumas das seguintes suposições:


• Nem todas as pessoas terem os mesmos interesses e habilidades, nem aprendem da mesma maneira.

• Ninguém poder aprender tudo o que há para ser aprendido.

• A tarefa dos especialistas em avaliação deveria de ser a de tentar compreender as capacidades e interesses dos alunos de uma escola.

• A tarefa do agente de currículo para o aluno deveria de ser a de ajudar a combinar os perfis, objetivos e interesses dos alunos a determinados currículos e determinados estilos de aprendizagem.

• A tarefa do agente da escola-comunidade seria a de encontrar situações na
comunidade determinadas pelas opções não disponíveis na escola, para as
crianças que apresentam perfis cognitivos incomuns.







Desta forma , Gardener sugere a conceptualização de um modelo de ensino e de escola centrada no aluno em vez de deter uma centralização única e exclusivamente focalizada nos conteúdos programáticos unificados. Para a concretização da escola centrada no aluno seria necessário contrariar as enormes e actuais pressões para a uniformidade e para as avaliações unidimensionais.



Do meu ponto de vista, obviamente que uma escola centrada no aluno seria a forma de educação ideal para um melhor desenvolvimento pessoal de cada um de nós, no entanto é ao mesmo tempo a contra-ideia do plano de escola viavel para o modelo económico das nossas sociedades, e anti-ético no sentido da igualdade de oportunidades (e muitas vezes da idealizada mas irreal igualdade de aptidões e de "intelectos") dos cidadãos... no entanto perante tamanhas limitações resta-nos para já resignar-mo-nos perante a inexorável realidade;


"In large states public education will always be mediocre, for the same reason that in large kitchens the cooking is usually bad."

Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Dados sobre a imigração

Numa breve resenha demográfica à escala mundial, deve dizer-se que em 1927 a população global atingiu o seu 2º milhar de milhão, em 1960 o 3º milhar de milhão, em 1974 o 4º milhar de milhão, em 1987 o 5º milhar de milhão e em 1999 o 6º milhar de milhão. Eis então que Portugal se torna um foco das migrações internacionais. Passo a transmitir alguns dados sobre o contributo desses imigrantes, referentes a 2001 e constantes num estudo realizado por Maria João Valente Rosa, Hugo de Seabra e Tiago Santos, publicado em 2004:
1º - As populações de nacionalidade estrangeira contribuíram para um quinto do acréscimo de população na última década, sendo este valor várias vezes superior ao seu peso no total da população residente em Portugal.
2º - Contribuíram para um movimento de reequilíbrio dos dois sexos no seio da população de Portugal. As migrações evitaram o aumento do predomínio demográfico das mulheres em Portugal. A maior parte dos imigrantes são do sexo masculino, entre os 20 e os 49 anos (maior incidência nos indivíduos com 25-29), logo em idade activa. Atenuaram, portanto, os níveis de envelhecimento. O número de indivíduos com 15-34 teria diminuido em Portugal sem a presença destes estrangeiros, tanto pela maior concentração da população estrangeira nas idades férteis, como também pela sua maior taxa de fecundidade.
3º - Contribuíram para os desequilibrios de povoamento, mais de metade residia nas regiões de lisboa e península de Setúbal.
4º - Salientam-se as divergências entre as estatísticas fornecidas pelo SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) e o INE (Instituto Nacional de Estatísticas), 315 mil imigrantes para o SEF em 2001, 233 mil para o INE em igual período.
5º - Por taxas de representação por terra de origem e com autorização de permanência à data de 2001:
Ucrânia-45233
Brasil- 23713
Moldávia- 8984
Roménia-7461
Cabo-Verde- 5488
Rússia- 5022
Angola- 4997
China-3348
Guiné Bissau-3239
Paquistão- 2851
Com autorização de residência:
Cabo Verde- 49930
Brasil- 23541
Angola- 22630
Guiné-Bissau-17580
Reino-Unido-14952
Espanha- 13541
Alemanha- 11143
EUA-8058
França- 7771
S.Tomé e Príncipe - 6230
Estes números serão anteriores à criação do espaço Shengen, pois existem neste segundo caso, nacionalidades que não necessitam de autorização para residir em Portugal, neste momento, pelo menos assim creio. Mostra no entanto as tendências de legalização relativamente a outras nacionalidades e deixa de fora um número considerável de "ilegais". É necessário pensar a imigração e para mim torna-se imprescindível arranjar algo mais recente, visto que desde 2001 inúmeras alterações legislativas foram introduzidas, assim como a imigração deverá ter conhecido novos contornos, com a entrada dos países da Europa do leste na U. E. Os imigrantes eram nesta altura, responsáveis por cerca de 6% do PIB.
Este estudo foi produzido no âmbito do observatório da imigração, repito, por Maria João Valente Rosa, Hugo de Seabra e Tiago Santos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Pensamento do dia

Hoje um amigo, no meio de uma conversa proferiu uma frase que gostaría de partilhar,


... cá vai, para reflectir...




"Uma sociedade terá de ser egoísta para que os seus membros possam ser altruístas " .






O que pensam deste assunto numa existencia globalizada como a da maior parte dos povos do presente , mas também num contexto de globalização economica, com enriquecimentos e empobrecimentos simultaneos?

Renascença

Após dias e dias de negociação aturada, eu e a Sapiens chegámos à conclusão de que o que interessa mesmo é o nosso projecto, independentemente da sua dimensão ou importância exteriormente atribuida, como tal, decidimos continuar juntos nesta tarefa, apelando para isso ao nosso, também existente, sentido de tolerância. Antropo-reflexões parte 2. No fundo um pouco de porradita tem a sua piada:)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Transsexualidade na primeira pessoa

Irá hoje ser emitida na TSF, pelas 19 horas uma reportagem sobre a transsexualidade.

Clicar para ouvir online ou para visualizar as frequências da TSF

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Os meninos "velhinhos"




Mudando um pouco a temática dos últimos, e em certa medida "polémicos" posts, gostaria de partilhar convosco uma história que me foi contada por uma amiga e mãe.
O tema centrar-se-á sobretudo na educação e forma como se desenvolve a percepção da diferença pelas crianças, com base numa história vivida e contada na primeira pessoa.
Ora, essa minha amiga tem uma filha actualmente com quatro anos.
Todos sabemos que as crianças por vezes têm medo de certas coisas, algumas têm medo de insectos, outras de palhaços, outras de pessoas mascaradas no geral mas a filha da minha amiga desde bebé que evidenciava medo de pessoas de alguma forma mais escuras do que ela ou do que os seus pais. Algo que se passava com as pessoas de origem africana em geral mas até com pessoas com cores de pele um pouco mais morenas do que o padrão de cor de pele da sua família. Assim, a própria tia sendo um pouco mais morena, era "cumprimentada" com uma birra sempre que lhe pegava ao colo e continua até aos dias de hoje a ser olhada pela pequena com um certo receio. A mãe, ao aperceber-se do que se passava achou que tinha de lhe explicar que as pessoas mais escuras não lhe faziam mal e que por isso ela não deveria de ter medo e lembra-se de fazer um paralelo explicativo de substituição, uma vez que um bebé não iria compreender os conceitos biológicos da melanina, da causalidade das condições climatéricas e das determinações genéticas...
Assim, lembrou-se expontaneamente de lhe explicar que as pessoas mais escuras eram como os velhinhos... eram apenas pessoas velhinhas, apenas isso e que não teria de ter medo. Acontece que até aos dias de hoje a pequena continua a pensar que as pessoas pretas ou simplesmente mais morenas se encontram nalgum estado de velhice mais avançada do que ela e que os meninos pretos já são velhinhos e que em breve morrerão... sim, porque foi-lhe explicado numa história que em nada tem a ver com este raciocínio das cores e das idades das pessoas que, quando as pessoas ficam muito velhinhas morrem. Na cabeça dela se as pessoas escuras são velhinhas, então em breve vão morrer.
Achei engraçado o facto de , actualmente com quatro anos a menina continuar a acreditar na primeira definição que lhe foi transmitida acerca da cor da pele das pessoas. Agora, e embora a mãe esteja a tentar desmistificar a situação, explicando-lhe já por A + B que há meninos de várias cores e que isso tem a ver com o sol, a pequena não deixa de lado a primeira lição sobre esta diferença e responde...
-- sim, este menino é mais escuro porque apanha sol e... Porque é velhinho!
Com esta história gostaria apenas de colocar em cima da mesa o peso que têm as primeiras impressões e definições conceptuais no cérebro das crianças. Acredito que, as primeiras definições que nos são explicadas para os fenómenos do mundo e para as diferenças e distinções sensoriais para as quais necessitamos imperiosamente de achar uma causalidade explicativa, têm uma importância extrema e determinante na formação dos nossos valores, ideias e impressões. Pessoalmente acredito que , não obstante todas as explicações lógicas que lhe podem ser incutidas a partir de agora, a ideia de que as pessoas mais escuras têm um grau de antiguidade mais elevado ficará gravada no "Hardware da mente" desta criança e que apenas a cuidada elaboração de um "Software mental" de emulação (virtual machine) poderá ajudar a reparar esta configuração de base erradamente "imprinted", mas nunca a eliminando por completo.
De alguma forma a criança explicou para si mesma uma diferença sensorial evidente. Estas explicações da diferença podem claro ser múltiplas e explicarão a "especificidade" da diferença encontrada ao nível dos sentidos. Se esta operação é impossível de evitar, o que poderá variar será o teor da justificação/explicação.
De qualquer forma este exemplo servirá para nos ajudar a reflectirmos sobre as nossas próprias valorizações relativamente ás outras raças, culturas, religiões, sexo, género ou orientações sexuais que são alguns dos grandes alvos da discriminação social, e em que medida estes se devem à cultura, ás tentativas de explicação dos fenómenos por parte dos pais aos seus filhos, das percepções expontaneas das crianças sob a forma como a sociedade que a circunda valoriza essas diferenças, e ás discriminações negativas ou mesmo ás positivas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Qualidade de vida no mundo Urbano



Partindo de um tópico muito interessante postado pelo Rafael no blog Buda verde, cabe-me elogiar a sua pertinência. Primeiro porque como se diz por cá, "só nos lembramos de Santa Bárbara quando faz trovões", o mesmo será dizer que muitas vezes só nos apercebemos do que está mal em situações limite.

Depois porque é essencial que as pessoas comecem a tomar consciência de que em pleno século XXI temos e devemos de reivindicar uma coisa que se chama qualidade de vida.. qualidade de vida não é só chegar ao fim do mês e ver um salário chorudo na conta. É sim, poder acordar de manhã com a garantia de que chegamos sãos e salvos ao trabalho, é podermos olhar para a frente da porta de casa e ver uma paisagem desafogada, ter direito ao sol, a um bom urbanismo, limpeza nas ruas e a respirar ar puro.

Actualmente, herdeiros da construção desenfreada que caracterizou as migrações maciças do campo para as cidades e pela construção desenfreada que aí teve lugar sem qualquer matriz de urbanismo, vemo-nos a braços com uma cada vez maior perda de qualidade de vida. O espaço urbano satura-se de uma forma impar na história moderna e pos-moderna.

Não sei se serão todos como eu, mas pessoalmente fere-me os olhos ver o mundo citadino tão agressivo... e o mais espantoso é vivermos no dito Século XXI onde se edificaram há muito estruturas urbanisticas de base, planos directores municipais, planeamento de áreas verdes etc e ver muito poucas destas regras aplicadas na prática.

Perto de minha casa, numa zona dos arredores de Lisboa, por sorte com prédios de pouca altura (vale-me a sorte de morar perto de um aeródromo, factor que não permite que os prédios se elevem acima dos 4 andares), as moradias crescem como cogumelos e nem a crise imobiliária parece abrandar esta tendência.

Actualmente vemos muros a entalar janelas, terraços que se estendem a telhados alheios , varandas que espreitam para os altos muros das traseiras da garagem do vizinho.. enfim, uma total ausência de espaços entre as habitações uma tão parca privacidade e sensação de espaço que só encontra par nas típicas medinas do mundo árabe.

Actualmente vai-se construindo “á multa”, estruturas aberrantes, algumas delas aprovadas directamente nos gabinetes de arquitectura das próprias câmaras municipais, outras por livre arbítrio dos desejos dos moradores. A câmara confina a sua acção á recolha das devidas coimas e o assunto fica, na maioria dos casos arrumado.



Um outro exemplo de absurdo urbano área metropolitana de Lisboa é precisamente uma das suas mais recentes urbanizações; a chamada"zona expo". Esta, que começou inicialmente por se erguer como espaço de elite, desenhada com esquadria e propagandeando-se como garante de elevados padrões de qualidade de vida decai perante o infindável desejo e procura de espaço para se construir mais e mais... Acontece que, com o passar dos anos, qualquer pessoa que a visite constata que esta se tornou num autentico aglomerado de betão onde as ruas estreitaram e os edifícios se elevam privando do sol ruas e outros edifícios. os estacionamentos são quase inexistentes por há muito terem sido ultrapassados os planos iniciais de loteamento... em resumo, aquilo que começou por ser um polo atractivo, tal como as nossas cidades dentro dos nossos países, vai-se aos poucos tornando numa zona de difícil usufruto.

Por sinal na zona onde moro não existe um único espaço verde que seja publico... ao queixarem-se deste facto os habitantes da minha freguesia receberam a caricata resposta sobre os espaços verdes da freguesia aquele que mais me saltou á vista foi precisamente o reconhecimento da “rotunda da repsol” que por sinal tem uma bonita relva... talvez pense em fazer por lá pic-nicks com a família um dia destes...

Para finalizar... com quem fica a culpa?

A meu ver fica com aqueles que no exercício do seu dever/poder permite a construção desenfreada a troco de uns "pequenos" bónus salariais.

... quanto á qualidade de vida... continuamos a vislumbrá-la nos livros.. e nos parcos exemplos dos países nórdicos... que quase já nem me arrisco a apelidar publicamente de civilizados com receio das represálias do politicamente correcto...